Mais uma Páscoa se aproxima, a festa máxima dos cristãos. O que há para se apreender, interiorizar com esse evento, que acrescente uma perspectiva mais expressiva em relação a todas as outras páscoas já vividas?
Há vários momentos, com passagens bíblicas, interessantes da quaresma, mas o momento dos momentos (Via Crucis) que me chama a atenção, sobremaneira, é sem dúvida a interação Jesus Cristo (JC) x Pôncio Pilatos.
O silêncio de Jesus é um “eloqüente discurso” onde não há palavras, quando interrogado por Pilatos: mas o que é a verdade? O seu silêncio parece gritar: não adianta dizer-lhe agora, você não conseguirá alcançá-la. Se Jesus iria ser crucificado por se dizer rei de um reino de outro mundo, é notório que se referia a um reino onde o poder secular não se fazia a partir de omissões (o lavar as mãos), do abuso, do autoritarismo em prol de um grupo, ou nação.
Ao abdicar de um reino secular, JC dá testemunho de que veio para dar início a um reino onde todos compartilham, comungam da construção e reconstrução do bem comum. Assim, o povo escolhido passa a ser todo aquele que acolhe essa verdade[1] que liberta, posto que é para todos, sem exceção.
Toda sua trajetória, assim, tornar-se um exemplo de como proceder para que a verdade triunfe a partir da máxima: faça ao próximo (aquele que de ti precisar), exatamente, tudo aquilo que quereis que ele vos faça. A verdade aqui é aquela pensada por Walter Benjamin [2]: a morte da intenção. Toda intenção, desse modo, pode ser vista como aquela que premedita um final que me seja favorável, ainda que o mesmo possa parecer, ou até mesmo ser legítimo, ou positivo.
Desse modo, parece praticamente ser impossível, viver de acordo com a verdade, se todos agimos segundo interesses particulares (assim, alicerçado em algum grau de premeditação). Daí a máxima popular: de boa intenção o inferno está cheio.
Então, como resolver esse impasse? JC indica uma ação desafiadora porque nos exorta a mudar nosso proceder, pela base, ao se tornar obediente até a morte, e morte de cruz, abandona-se a si mesmo nos braços, ou à vontade do Pai. Dito de outro modo: desafia-nos (também) a aceitar, irrevogavelmente, a vontade do Transcendente como “vítima” que oferece a si mesma por uma causa maior, servindo como exemplo de um “devir” árduo, mas necessário, uma vez que desembocará na vitória da vida plena[3] sobre a morte.
Daí parece advir a verdade enquanto confiança (do hebraico: emunah), que nos indica que se agirmos pelo bem da coletividade, não deve existir preocupação de como fazê-lo, basta a entrega total e irrestrita à vontade do Absoluto que pensa sempre no bem comum.
E como saber sobre a vontade do absoluto? Se lembrado de fazer ao próximo tão somente aquilo… Portanto, uma verdade simples e cíclica, onde um fato encontra-se imbricado a outro. Tão simples que tem andado ofuscada pelo não compartilhamento do que sobra, demasiadamente, para poucos, e que deve pertencer a todos; sobra riqueza material à uma minoria, e falta responsabilidade ética, em relação à maioria.
Dessa feita, como a prole de Pilatos tem crescido, ao lavar as mãos, diante do que tem o poder de mudar, bem como, também, tem se perpetuado a prole dos poderosos que querem se manter no poder que embriaga, vicia pelas benesses que proporciona.
E, assim, toda nova Páscoa é momento de se desatar os laços com essas famílias funestas, e se fazer membro da família divina que não nos pede nada mais que amar uns aos outros, fazendo tão somente o que quero que me façam. Partindo desse pressuposto, foi o próprio JC que proferiu: meu julgo é suave e o meu fardo é leve. Então, por que não carregar esse amor no coração, se é em prol de toda a humanidade?
Atma FL (minha maior ambição é poder dizer que sou, autêntica, cristã)
[1] “Verdade vem do grego aletheia, cujo significado se manifesta aos olhos do corpo e do espírito: o não oculto. Do latim, veritas: o que se refere à exatidão de um relato ou um fato. E por final, do hebraico: emunah, significando confiança. Portanto, aletheia é presente, veritas é passado e emunah é futuro”. Vide: ocaminhodedavi.com/visualizar.php?idt=2268048
[2] Vide: Kaufmann, David. Adorno and the name of God.
[3] Vida plena iniciada já aqui na terra, por meio da divisão equitativa do bem comum.