A Verdade Vos Libertará (!?)

Mais uma Páscoa se aproxima, a festa máxima dos cristãos. O que há para se apreender, interiorizar com esse evento, que acrescente uma perspectiva mais expressiva em relação a todas as outras páscoas já vividas?

Há vários momentos, com passagens bíblicas, interessantes da quaresma, mas o momento dos momentos (Via Crucis) que me chama a atenção, sobremaneira, é sem dúvida a interação Jesus Cristo (JC) x Pôncio Pilatos.

O silêncio de Jesus é um “eloqüente discurso” onde não há palavras, quando interrogado por Pilatos: mas o que é a verdade? O seu silêncio parece gritar: não adianta dizer-lhe agora, você não conseguirá alcançá-la. Se Jesus iria ser crucificado por se dizer rei de um reino de outro mundo, é notório que se referia a um reino onde o poder secular não se fazia a partir de omissões (o lavar as mãos), do abuso, do autoritarismo em prol de um grupo, ou nação.

Ao abdicar de um reino secular, JC dá testemunho de que veio para dar início a um reino onde todos compartilham, comungam da construção e reconstrução do bem comum. Assim, o povo escolhido passa a ser todo aquele que acolhe essa verdade[1]  que liberta, posto que é para todos, sem exceção.

Toda sua trajetória, assim, tornar-se um exemplo de como proceder para que a verdade triunfe a partir da máxima: faça ao próximo (aquele que de ti precisar), exatamente, tudo aquilo que quereis que ele vos faça. A verdade aqui é aquela pensada por Walter Benjamin [2]: a morte da intenção. Toda intenção, desse modo, pode ser vista como aquela que premedita um final que me seja favorável, ainda que o mesmo possa parecer, ou até mesmo ser legítimo, ou positivo.

Desse modo, parece praticamente ser impossível, viver de acordo com a verdade, se todos agimos segundo interesses particulares (assim, alicerçado em algum grau de premeditação). Daí a máxima popular: de boa intenção o inferno está cheio.

Então, como resolver esse impasse? JC indica uma ação desafiadora porque nos exorta a mudar nosso proceder, pela base, ao se tornar obediente até a morte, e morte de cruz, abandona-se a si mesmo nos braços, ou à vontade do Pai. Dito de outro modo: desafia-nos (também) a aceitar, irrevogavelmente, a vontade do Transcendente como “vítima” que oferece a si mesma por uma causa maior, servindo como exemplo de um “devir” árduo, mas necessário, uma vez que desembocará na vitória da vida plena[3] sobre a morte.

Daí parece advir a verdade enquanto confiança (do hebraico: emunah), que nos indica que se agirmos pelo bem da coletividade, não deve existir preocupação de como fazê-lo, basta a entrega total e irrestrita à vontade do Absoluto que pensa sempre no bem comum.

E como saber sobre a vontade do absoluto? Se lembrado de fazer ao próximo tão somente aquilo… Portanto, uma verdade simples e cíclica, onde um fato encontra-se imbricado a outro. Tão simples que tem andado ofuscada pelo não compartilhamento do que sobra, demasiadamente, para poucos, e que deve pertencer a todos; sobra riqueza material à uma minoria, e falta responsabilidade ética, em relação à maioria.

Dessa feita, como a prole de Pilatos tem crescido, ao lavar as mãos, diante do que tem o poder de mudar, bem como, também, tem se perpetuado a prole dos poderosos que querem se manter no poder que embriaga, vicia pelas benesses que proporciona.

E, assim, toda nova Páscoa é momento de se desatar os laços com essas famílias funestas, e se fazer membro da família divina que não nos pede nada mais que amar uns aos outros, fazendo tão somente o que quero que me façam. Partindo desse pressuposto, foi o próprio JC que proferiu: meu julgo é suave e o meu fardo é leve. Então, por que não carregar esse amor no coração, se é em prol de toda a humanidade?

Atma FL (minha maior ambição é poder dizer que sou, autêntica, cristã)


[1] “Verdade vem do grego aletheia, cujo significado se manifesta aos olhos do corpo e do espírito: o não oculto. Do latim, veritas: o que se refere à exatidão de um relato ou um fato. E por final, do hebraico: emunah, significando confiança. Portanto, aletheia é presente, veritas é passado e emunah é futuro”. Vide: ocaminhodedavi.com/visualizar.php?idt=2268048

[2]  Vide: Kaufmann, David. Adorno and the name of God.

[3] Vida plena iniciada já aqui na terra, por meio da divisão equitativa do bem comum.

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Mulher e homem: dualidade que deve se complementar

O que temos para celebrar em mais um Dia internacional da Mulher[1]?  Que como se sabe, foi estabelecido para lembrar e combater a violência (trabalhadoras em greve, violentamente reprimidas[2]) contra o sexo feminino, que no raiar de mais um milênio insiste em perdurar.

Estamos por demais atrasados no trato com as ditas minorias sociais (mulheres, negros, homossexuais, indígenas, pobres, etc.) que são categorias expostas às várias faces e fases da violência: psicológica, moral, física a qual é a última fase, mas não a única.

Se o “funcionamento do mundo” ainda repousa num modelo altamente considerado masculinizado, tal paradigma não deve ser considerado como natural, mas uma construção social que veio se afirmando ao longo de séculos.

Assim, a cultura machista está entranhada na educação que recebemos já dentro de casa, no espaço privado, e tem se tornado um desafio, superá-la. Papéis estabelecidos como naturais[3], nos devem fazer repensar comportamentos, atitudes e preconceitos, com relação a gênero.  Exemplos “clássicos” do tipo: não permita que seu filho realize funções femininas, ele pode tornar-se homossexual; mulheres não precisam ser muito inteligentes, senão afastam os homens, etc. Pensamentos desse tipo são mais comuns do que se imagina. E o mais perturbador é que eles partem, inclusive, de várias mulheres.

Se levarmos em conta que essa tradição machista remonta a 10 mil anos[4], é “compreensível” tal atitude, mas não mais aceitável (se é que um dia poderia ter sido, aceitável).

Precisa-se entender a origem, desse pensar, para poder desconstruí-lo. De algumas teorias que tratam sobre o assunto, Badinter (1986)[5] discorre com significativa propriedade, sobre ele.

Ao retornar à pré-história, onde os primeiros grupos humanoides ainda se constituíam, para fazer face às necessidades de pura sobrevivência num meio extremamente hostil, a autora defende que os mesmos, passaram a se tornar paulatinamente mais complexos, em termos sociais e relacionais. Já com a revolução que se deu, com a descoberta da agricultura, provavelmente pelas mulheres, observadoras da germinação das sementes, e da perspicácia de se criar utensílios de barro para poder armazená-las, decorreu-se um tempo onde se firmou uma parceria entre os gêneros, onde o ser feminino detinha um poder sagrado: o da reprodução. A força física masculina alinhava-se ao poder feminino da sutileza, da observação e da capacidade de gestar novos seres. Ao que os fatos indicam: eram um com o outro, convivendo em expressivo acordo.

Porém, a partir da criação da necessidade de conquistar, dominar grupos rivais que competiam entre si, por territórios e comida, a força física masculina, sobrepuja os predicativos femininos, ao mesmo tempo em que os homens passam a perceber que eles, também, são imprescindíveis à reprodução da prole. Começa, então, o tempo de um contra o outro, o qual perdura até os dias atuais.

Conquistas e competições tornaram-se traços, eminentemente masculinos, para conquistar “dias melhores”, dominar a natureza, por vezes hostil, na sucessão de suas estações, etc. Não coube mais a sutileza feminina em lidar com o outro, com o meio circundante. A deusa mãe foi preterida pelo deus da guerra que passou a resolver tudo, somente, na base da força, da competição. A lei do mais forte tornou-se regra geral a ser sempre obedecida.

Desse tempo até aqui, tem-se percebido, inegavelmente, muitas conquistas, nos mais variados setores da vida em sociedade. Mas, o espírito competitivo, mantido, tem respondido, à altura, às reais necessidades da humanidade? Não já é tempo de, amadurecidamente, percebermos que um é o outro (no dizer de Badinter)? Ou duas faces de uma mesma moeda?

Essa teoria faz eco, principalmente, se observarmos os modelos de desenvolvimento excludentes que tem se sucedido ao longo da história. Não se trata de feminismo puro e simplório, mas de acrescentar sensibilidade ao lidar com o outro, o todo.

Mulheres e homens são parte indissociável da mesma realidade. Um não pode viver sem o outro. Precisa-se aprender a lidar melhor com as diferenças entre ambos. As mulheres, precisam saber usar, mais, de objetividade[6] quando necessário, para não ficarem perdidas em seus mais diversos anseios. Ao passo que os homens necessitam cultivar, bem mais, o cuidado[7] no trato com seus entes. Assim, portanto, a dualidade entre ambos é desmistificada, e permanecem seres humanos que necessitam vencer, juntos, suas dificuldades relacionais; ou impostas pelo meio onde se encontram inseridos.

Enquanto perdurar o contrário, muito sofrimento desnecessário, nos mais variados aspectos relacionais, se arrastarão indefinidamente. Em pleno terceiro milênio, faz-se urgente constituir sabedoria no trato com o diferente que não sou eu, mas empresta significado ao meu existir. Seja o diferente quem for, EU ou TU[8], merece todo o respeito, pois exerce sua parcela de contribuição na complementaridade entre os sexos; na edificação de um todo.

Fátima Faro Lopes: ser humano, mulher, brasileira, socióloga…


[1] “Violência contra mulher: Pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo em parceria com o Sesc projeta uma chocante estatística: a cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas violentamente no Brasil. E já foi pior: há 10 anos, eram oito as mulheres espancadas no mesmo intervalo.Realizada em 25 Estados, a pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado ouviu em agosto do ano passado 2.365 mulheres e 1.181 homens com mais de 15 anos”. Vide:http://www.dignow.org/post/viol%C3%AAncia-contra-a-mulher-1402550-19941.html

[2] Origem do Dia Internacional da Mulher. Vide: http://www.suapesquisa.com/dia_internacional_da_mulher.htm

[3]Papéis sociais de gênero, que perduram ainda hoje no imaginário popular, no senso comum:Mulheres são do espaço privado, portanto devem exercer funções domésticas; homens do público, portanto, devem ser os provedores naturais e materiais da prole.  

[4] Para Muraro a cultura machista se estabeleceu com o patriarcado, quando os homens tiveram que brigar por alimento, há cerca de 10 mil anos atrás, desenvolvendo, assim, a possessividade, bem como a divisão entre cabeça e corpo, mente e emoção. Antes, existia o matricentrismo, quando o poder exercido pelas mulheres não tiranizava o parceiro (daí, matricentrismo e não matriarcado). Então, enquanto a agressividade tem apenas 10 mil anos, a solidariedade tem quase dois milhões. In: Revista Ano Zero, maio de 1992. Páginas: 46-53.  

[5] BADINTER, Elizabeth. Um é o Outro. Nova Fronteira, 1986.

[6] Toda teoria parte da observação do real, e não é capaz de abrangê-lo, totalmente. Com isso, não se estar dizendo, aqui, que mulheres não possuem objetividade, mas que precisam saber lidar melhor com essa que é uma qualidade considerada, mais, masculina.

 [7] Outrossim, os homens necessitam cultivar, também, mais a solidariedade, e acalmarem o espírito competitivo.

 [8] Em referência a BUBER, Martin. (1977). Eu e Tu. Trad. Newton Aquiles Von Zuben. São Paulo: Moraes.

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Tristeza não tem fim, felicidade sim (Vinícius de Moraes). (!?)

A ilusão de que em quatro, cinco dias, quebrando regras sociais, o contentamento far-se-á garantido, remonta a mais alta antiguidade.  “Carrum navalis”, “carne levandas”[1], ou simplesmente carnaval, tem vários aspectos[2]. Mas, me interessa, aqui, o da fuga do cotidiano, a busca por experiências, emocionantes, extremadas.

É sabido que se vive, hoje, o acúmulo de funções e papéis sociais que não permitem, facilmente, o indivíduo priorizar tempo para ser mais completo, enquanto pessoa que necessita ser, por exemplo, adequado profissional, amante, pai, amigo, etc. Vive-se, por isso, muitas das vezes, mais em função do vir a ser (“devir”) do que o presente.  E essa preocupação constante com o futuro o tem deixado comprometido no que se refere à qualidade do vivido. Partindo do pressuposto que o pretérito é imutável, e o futuro uma incógnita, o que permanece como mais forte, em nível de experiência, é o presente fugaz, mas que encerra em si mesmo, o solo fértil onde serão depositadas as sementes de nossas escolhas, atitudes, comportamentos, etc.

Portanto, vivenciá-lo de qualquer forma, sem primar pela sua possível maior qualidade, é o que permite um cotidiano onde os dias parecem intermináveis e os anos passam voando. Vivi-se, então, mais em função das mesmas velhas práticas, que da dinâmica de tornar os dias mais prazerosos a partir da revitalização, reencantamento[3]  dos pequenos detalhes do cotidiano. Nada mais singelo que o prazer proporcionado por um simples copo d’água, mas que de um gesto tão automático, passou a ser imperceptível para a maioria das pessoas.

Torna-se necessário um distanciamento[4] dos entes, coisas, eventos que nos proporcione uma espécie de estranhamento onde percebamos a importância que cada um deles têm, no conjunto do qual façam parte. O que equivale ao exercício constante da busca do que completa, plenifica. O importante é que se mantenha renovado o gosto por essa busca, sem deixá-la cair no marasmo, ou tédio, onde já não se percebe que cada segundo carrega em si mesmo, potencialmente, o germe do novo que para ser criativo só depende de cada um, em particular, e de todos, em geral.

E onde entra o carnaval, em relação a tudo isso? Exatamente na fuga da extenuação do cotidiano, onde nos arvoramos a experimentar, em alguns dias, “tudo” que podermos, e que nos permita fazer esquecê-lo. Rescindir com a/as convenção(es) social(is), vez por outra, pode até ser prazeroso, excitante, ousado  e até, um tanto quanto, criativo, uma vez que é quando “nos perdemos”, que temos a oportunidade de descobrirmos novos caminhos. Mas, ser o que se gostaria, somente de carnaval em carnaval (ou em momentos de recreação), é indício de que a qualidade do cotidiano está passando despercebida.

Pão e circo, por essas bandas, sugere ser uma prática ainda usual, mas não estamos totalmente alienados, assim. “O sanatório geral passa”, mas nossas ações devem ser sempre pautadas pela assertiva de que da realidade ninguém pode ausentar-se, por muito tempo.  A não ser que tenhamos aderido ao pensar que é melhor não se pertencer, e fingir ser venturoso. Mas, prefiro: buscar ser pleno, não abdicando do real, e caminhar por/com ele, na direção do equilíbrio necessário vida à fora.

Bom carnaval!


[1] A origem da palavra carnaval é controversa. Há estudiosos que dizem que ela origina-se de “Carrum navalis”: carros usados nas procissões em homenagem ao deus Dionísio, na Grécia. Outros afirmam se originar de “Carne levandas”: palavra derivada a partir da expressão “dominica ad carne levandas”, usada por Gregório I, em 590 d. c., para se referir ao sétimo domingo que precede a Páscoa. Vide: ARAÚJO (2003).

 

[2] O aspecto comercial; de identificação por parte dos brincantes com sua face narcísica, do anonimato e a de experimentar novas emoções. Ver: FARIAS (2006).

 

[3] No pensar de WEBER, Max (1983): estamos presos na gaiola de ferro da técnica instrumental fria, onde se vive mais em função do velho, do que do novo, onde os costumes, logo, nos fazem esquecer essa prisão.

 

[4] Para BUBER, Martin (1977): o espaço necessário “entre dois” seres, coisas, eventos, capaz de torná-lo singular em relação a todos os outros, e ao mesmo tempo, um com os demais.

 

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O ethos do brasileiro não é sinônimo de desonestidade

Quando o estado do bem estar social foi decrescendo (crise de 1929: quebra da bolsa de NY), já era perceptível que o sistema econômico vigente, ao que tudo indica, se auto alimenta de crises. Por outro lado, o seu modo de acumulação tornando-se flexível, impôs perdas desvantajosas à classe trabalhadora que, até então, vinha conquistando, progressivamente, vários direitos trabalhistas, no embate e na barganha, os quais se tornaram históricos. A desaceleração desse processo indicou que o antagonismo entre classes não traria, necessariamente, o fim do modo de produção do capital.

Com a desilusão provocada tanto pelo totalitarismo de direita, quanto de esquerda, no cenário político mundial, surgiram os sociais democratas (de centro) e o socialistas (de esquerda) que ainda acreditavam num possível governo, eminentemente, socialista em países como o Brasil, (herdeiro de uma ditadura, conservadora).

Os democratas acreditavam (e ainda acreditam) que é possível uma governabilidade onde se possam aliar os acertos do período do pleno emprego com justiça social; os socialistas “puros”[1], diziam (e alguns ainda dizem) que aquela só é possível quando além do pleno emprego, o trabalhador reconhece seu trabalho enquanto seu, sua importância no processo produtivo, etc. E é reconhecido plenamente, assim também, pelo dono dos meios de produção (que para eles tinha que ser, em princípio, necessariamente o Estado). Desse modo, seu salário deveria ser capaz de fazer face, a pelo menos de início, às suas necessidades básicas.

Mas, esse discurso ideológico nunca se tornou real por aqui, e na atual conjuntura, democratas e socialistas “puros” (na sua grande maioria), passaram tão somente a ambicionar o poder (político) já que suas práticas políticas não diferem, significativamente, entre si.

Ambos esbarraram no tradicional modo de se fazer política no Brasil: no patrimonialismo, no nepotismo, na corrupção… Sendo que o partido dos trabalhadores conservou, principalmente no inicio de sua administração, Brasil adentro, servidores públicos, realmente, comprometidos em realizar, possível distribuição mais equitativa de alguma renda. Ampliou-se a abertura de crédito, como “nunca antes na história desse país” se havia feito. Mesmo hoje “só tendo quem deve”, esse é o nosso, singularíssimo (e atrasado), estado do bem estar social, conquistado com misto de algum trabalho x “mensalões, cuecões”, etc., e vista grossa a tudo isso.

Mas, sempre foi assim o jeito de se fazer política por essas bandas. O importante agora é que foi feito mais, do que já se havia feito antes. Certo? ERRADO! O pacote ao qual aderi vinha completo: com moralização e ética como essenciais para se construir um país de riso e glória, como nunca houve nenhum (para parafrasear Drummond de Andrade). Não trocarei o pacote no qual acreditei, pelo autoritarismo disfarçado de democracia plena, ineficiência do estado em gerenciar uma “simples” greve de trabalhadores, entre tantos outros acontecimentos que colocam em cheque a eficiência do Estado.

Essa é a minha opinião, incomode a quem incomodar. Respeito todos os posicionamentos, mesmo não concordando com eles. Ainda que vivamos numa imatura democracia, tenho o direito de pensar assim e não preciso que queiram me convencer a mudar de opinião. Não sou ignorante do panorama sociopolítico deste país, só acredito que é possível um modelo de governabilidade condizente com a singularidade e aptidões do Brasil enquanto nação que nasceu naturalmente rica, (apesar da exploração constante), pautado na transparência e na ética. O ethos do brasileiro não é sinônimo de desonestidade enraizada na sua cultura, mas a criatividade e a superação de tudo, (e de todos), que se conforma com a mesmice do anacronismo da vida privada, ao da vida pública deste país, o qual tem teimado em permanecer como um dos principais estereótipos do povo brasileiro, mundo afora (crimes contra as minorias sociais; contra a coisa pública, entre outros).

Destarte, a mudança pela raiz, a mudança radical de tudo (da esfera privada à pública) que precisa ser mudado neste solo, começa já dentro de casa (no  setor privado) e se estende pelas ruas, avenidas e instituições desse país (o público). E cada brasileiro (somos) responsáveis e artífices dela, tendo a oportunidade de comprovar, mais vezes, a vocação do Brasil enquanto país abastado que pode fazer, também, seu povo assim.

Essa ação é possível de ser realizada, só basta querer e se comprometer, de fato e de direito, em se avançar em agir com moralidade. As futuras gerações agradecerão, por certo.

 

Atma F L


[1] [1] Faz-se necessário acrescentar que chamo de socialistas “puros” àqueles que ainda se arvoram em dizer que acreditam e trabalham pelo bem comum, alicerçados pelos ideais socialistas, mas encontram-se muito aquém de tais ideais. Todavia, ainda existem, é preciso que se mencione, esses ideais na vontade de agir de alguns partidos políticos, constituídos por ex -integrantes dos que chamo, aqui, socialistas “puros”. Serão capazes de colocá-los em prática? Só a história dirá.

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“Redes sociais” (esboço preliminar)

Como não existem lojas de amigos,

Os homens já não têm amigos[1].

Nostalgia à parte em relação ao pensamento acima, hoje já há lojas de “amigos”. Não esqueçamos que na contemporaneidade, ou modernidade[2] tudo (e todos) continuam mais que alienáveis; podem ser expostos para o mercado.

Todavia, há de se rever o conceito de amizade. A amizade no presente também assume novos contornos, sem prescindir totalmente da idealização do modelo de amigo ainda tão solidificado no imaginário[3] coletivo.

Em momento que tempo e espaço extrapolam antigas convenções, encontra-se na pauta do dia, “é da hora”, as tais “comunidades” ditas virtuais[4]. Se comunidade remete-nos, em seus primórdios, aos antigos grupos onde perduravam estreitos relacionamentos face a face, nessas novidades relacionais, ocorre o lente a lente, o teclado a teclado. São relacionamentos frouxos, sem maiores proximidades que possibilitem algum aprofundamento na relação. O que vale é a quantidade de “amigos, seguidores”, etc., que garantam popularidade, ares de fama a quem se relaciona dessa forma. No mais das vezes, os relacionamentos “mais estreitos” se dão por meio da troca de mensagens cotidianas de otimismo e gentileza, entre pessoas que, provavelmente, nunca cheguem a se conhecer, pessoalmente.

Os assuntos, nessas comunidades, são os mais variados possíveis, porém aqui me interessa os fortuitos que passam pelo cotidiano, pela ideia[5] de liberdade, de ser livre, leve, solto e, portanto, feliz[6] por opção, uma vez que não se deve dar muita importância às coerções sociais, muito embora as falas quando analisadas deixem transparecer que nas entrelinhas desse comportamento, há uma gritante ansiedade pelas convenções sociais, pela felicidade perene onde não se vê, ou aceita, a coexistência dos pares de opostos (contentamento-descontentamento, felicidade-infelicidade…) como fazendo parte da existência de qualquer indivíduo comum.

Ainda mais, parece que se tornou refém da necessidade de viver ligado a uma teia, ou melhor, rede a qual interliga a todos, mas (em última instância) em si mesmos, já que o que se tem para compartilhar, expor é o mundinho de cada dia, simplório e individualista à medida que poucos são os que realizam um afastamento necessário para observar essa realidade nova. Realidade essa a qual não se sabe que conseqüências produzirão, em médio e em longo prazo, ao futuro dos relacionamentos.

Portanto, o que parece faltar é aprofundamento nos assuntos mencionados, com algum juízo de valor alicerçado num conhecimento mais elaborado com relação à realidade circundante, o qual empreste maior significado ao vivido. Falta o tempero do pensamento comprometido com a análise mais crítica do cotidiano. E não estou falando aqui de conhecimento acadêmico formal, o do senso comum já está de bom tamanho, pois é a partir dele que se pauta aquele.

Parece que a ausência dessa análise se deve ao fato de se cair em nostalgia ao se pensar sobre o vivido, pois ela pode remeter a se pensar nas coisas como são, e em como elas deveriam ser, se houvesse mais comprometimento com ações coletivas de qualidade, na vida em comum dos sujeitos imbricados nesse processo. Em outras palavras, esse fato remete à mudança, rever posicionamentos, valores, condicionamentos que dão trabalho para serem mudados pela raiz e não só nas aparências, na superfície.

Se não há prioridade com a profundidade das coisas, pois a realidade presente impõe o acúmulo de tudo e pouco tempo para realizá-lo (do consumismo, da informação, papéis sociais…), sobra, assim, a prioridade dada à quantidade do vivido. Como resultado disso se tem o gritante não pertencimento a si mesmo, ou em uma palavra, alienação. Não só no sentido materialista, mas sua negação por se considerar livre, quando na realidade se é escravo de modelos, modismos, convenções.

Se, então, os relacionamentos (de amizade, românticos, e mesmo familiares) refletem o tempo atual, é de se esperar sua superficialidade, efemeridade (não criam raízes), e a idealização a que deixam margem, quando se faz uma comparação com o tipo ideal de relacionamento o qual (ainda) perdura no imaginário popular. Observa-se melhor tal idealização, principalmente, naqueles que cultivam uma nostalgia do humano, de um tempo pregresso onde a prioridade era dada ao modelo ideal da qualidade do vivido, reflexo, por sua vez, de um tempo de segurança[7] no produzir (bens e serviços), e no se reproduzir enquanto grupo, comunidade.

Do que será que essa geração sentirá falta quando um novo momento substituir o atual? Será da superficialidade no lidar com o outro, da apatia que permeia os relacionamentos, hoje? Eis a questão.

A racionalidade instrumental, (advinda do esclarecimento), produziu o individualismo como adoecimento de contato, onde a frieza, a superficialidade tem dominado os relacionamentos, a La Adorno e Horkheimer (1985). As relações sem intervenção[8] de papéis sociais expostos como meios de promoção e aceitação social tem se tornado cada vez mais raras à valorização da pessoa do outro. Talvez tal pensar seja nostalgia de um tempo que passou e não retorne mais, onde os relacionamentos eram diretos. Percebo, todavia, que tal sensação não é prerrogativa exclusiva, minha. Aceito o novo acrescentando-lhe alma, mas sem deixar de ter o gosto de perpassar às futuras gerações a predileção pelo contato mente a mente, olho no olho, de coração para coração[9].

Alguns podem dizer que isso faça parte de uma geração que envelhece, mas digo que envelhecer não é uma questão física, e sim a incapacidade de relacionar-se de corpo e alma, uma vez que somos seres essencialmente sociais que não podem prescindir do outro, sobre pena de adoecer. Senão, como explicar a crescente onda de indivíduos depressivos e solitários nas grandes metrópoles, principalmente?

Por outro lado, ponto positivo,  em relação a essas redes sociais, é sua capacidade de aglutinar pessoas com mesmo objetivo em prol de uma causa; de uma denúncia que faça diferença na vida da coletividade. Como importante ferramenta em prol do bem comum, têm cumprido papel (muitas vezes) mais eficaz de que várias instituições moldadas, tradicionalmente, a isso.

O interessante é que se saiba utilizá-las sem exageros, acionando-as quando necessário ao bem comum, ou simples passatempo. O importante é que haja certo distanciamento das mesmas, para observá-las de modo, construtivamente, crítico.


[1] Exupery ao escrever O pequeno príncipe, realizou uma crítica mordaz e nostálgica aos relacionamentos na modernidade, tão pouco mencionada quando esta sua conhecidíssima obra é citada. (Fato que provavelmente supera o entendimento das concorrentes aos postos de beleza, uma vez que se tornou o seu livro de cabeceira).

[2] Um conceito sobre modernidade é sempre polêmico. Contudo, arrisco-me dizer (Lopes, 2005) que é um construto, o espírito de uma época, um discurso ou espécie de ideologia que já foi e, ao que parece, não deixou ainda de ser atual. Encontra-se sob o império da razão herdada do século das “Luzes” ou Iluminismo, também mais conhecido, precisamente, como Esclarecimento (Alfklarung para os alemães).

[3] Mesmo com as novidades virtuais, em matéria de amizade, as observações sugerem que ainda se mantém a figura do amigo ideal como aquele capaz de, por exemplo, realizar o possível e o impossível pelo outro, quando se questiona o que é ser amigo. Ideal muito longínquo da realidade de hoje.

[4] Faço parte de duas dessas comunidades presentes na web, onde venho observando  o comportamento dos usuários ao interagir com eles.

[5] Se para Sartre (como filósofo existencialista extremado) a liberdade só existe como conceito, uma vez que é impossível existir sem se estar atrelado a algo, já para Mounier (personalista), a liberdade só é possível quando acordamos que estamos fadados a ela ao perceber-se como pessoas em constante construção e reconstrução.

[6] O indivíduo feliz parece ser aquele ciente de que a felicidade é um estado de espírito que requer serenidade. Uma façanha na atualidade onde o indivíduo acumula atribuições que lhe ocupam demasiadamente o tempo. Então, para ser feliz é necessário saber administrar atribuições, ao longo de um dia com apenas 24 horas.

[7] No dizer de Bauman (2003), modernidade sólida. Época do estado do bem estar social.

[8] É bem verdade que o fenômeno da violência tem afastado, cada vez mais ainda, as pessoas. O que deve ser compreendido. Ressalta-se, no entanto, o estreito limite entre cuidados ,a se tomar, e paranóia.

[9]  Faz-se necessário acrescentar que se encontram também, nessas redes, pessoas as quais perpassam a idéia de sensibilidade humana ao acolher, lidar com o outro. Sugerem ultrapassar a mídia fria do computador e tocar o coração do outro em momentos efêmeros, mas existentes. Todavia, são exceção.

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“Belo Monte”

Defender a não construção de “Belo Monte” tornou-se mais complexo e delicado do que pensam os que crêem que isto seja, simplesmente, abraçar a causa da preservação do meio ambiente, na atualidade, tão em voga desde a mídia, academia e até mesmo em conversas informais. Entretanto, há de se ter claro, e convincentemente bem argumentada, a defesa contrária à essa construção.

É notório que abraçar a causa do meio ambiente é um excelente modo de promoção de “Personas”, entidades, instituições… Todos indicam querer tirar algum proveito. Nada de novo, até porque o que move o mundo são os interesses. Dos sórdidos “particularistas” que só beneficiam um “grupelho”, passando pelos que beneficiam , dando maior notoriedade, a “celebridades”, entre outros, e chegando nos que buscam/dizem beneficiaar toda uma coletividade. Isso parece inquestionável.

Problemas, no entanto, ocorrem quando para se ajudar, atrapalha-se mais do que ajuda-se, pois não se sabe ao certo porque se é contra ou a favor de algo. (E agi-se como se a realidade não fosse complexa). Exemplo disso é o vídeo das “celebridades” globais em prol da não construção de Belo Monte. Pois, mostra-se pouco aprofundado no conhecimento da causa que abraça. Mas, a meu ver não deixa de ter alguma significância, posto que atrizes e atores têm seu peso na formação das opiniões correntes (ainda que de forma pouco crítica por parte do grande público. O que no mais das vezes, a compromete na sua legitimidade que torna-se questionável).

Particularmente, sou contra a construção dessa usina hidrelétrica por motivos que necessitam ser esmiuçados para que os a favor, possam perceber que existem motivos convincentes para tal.

A construção da hidrelétrica de Belo Monte seria viável, para o Brasil se ela não fosse à contra mão do repensar o modo de consumo, de vida e conhecimento que se tem como modelo, ainda, fortemente vigorando no mundo. Sem mencionar a dívida histórica e social que se tem com as etnias indígenas que lá vivem, dentre outras comunidades.

Vários dirão: qualquer intervenção no meio ambiente tem seu impacto e essa construção beneficiará mais que prejudicará o país, uma vez que dinamizará (também) a economia de várias comunidades pobres, inclusive indígenas que reclamam (entre outras coisas) da inundação de suas terras que são imensas, em termos proporcionais, às reais necessidades de seus integrantes.

À primeira vista, esse discurso parece certeiro como dois mais dois, convencionou-se dizer que são quatro. Mas, as razões contrárias são imperativas e só poderão ser melhor comprovadas, como as mais acertadas, em médio e longo prazo. Há de se ter sensibilidade praticamente visionária para adotá-las, e não imediatistas. Senão, vejamos:

O Brasil tem mentes brilhantes que podem contribuir (como já vem, mesmo que paulatinamente, contribuindo) com o conhecimento produzido nos quatro quadrantes do mundo. Não só com o conhecimento tecnológico, mas também sociológico, antropológico, econômico, filosófico que devem sair dos muros da academia e integrar-se mais ao cotidiano da população.

Partindo desse pressuposto, a quem interessa, “racionalmente”, o modo de vida que a maior parcela da população mundial teima em levar? Uma vez que a maioria do conhecimento produzido (no país e fora dele), aponta  para a incongruência que é a intervenção no meio ambiente, de construções como essa.

Alguns exaltados logo dirão: lá vem o discurso dos apocalípticos prenunciando desgraças irreversíveis, tão contraditórios. Falam tanto, mas não passam uma hora nas suas salas sem climatizadores de ar, mesmo nos dias de tempo ameno.

Concordo, em gênero e número, mas não em grau, pois existem “apocalípticozinhos” que só visam interesses próprios  e “apocalípticos” que sabem do que estão falando, ainda que não concordem com esse adjetivo, e não se sintam nada confortáveis em ter que alertar a sociedade sobre os reais perigos que corre devido ao seu  arraigado estilo de vida.

É sabido que o ser humano desde que se tornou  um ser de cultura, tem vivido um dilema constante entre ela e a natureza que ora sugere ser sua aliada, ora adversária. Ao longo das idades tem buscado harmonizar-se com a mãe/madrasta natureza.  Mitos e cultos resistem até os dias atuais para corroborar isso. Mas, a partir do momento que ocorreu um “corte brusco” entre cultura e natureza[1], o ser humano (principalmente o ocidental) passou a buscar tão somente dominá-la e dela tirar proveito, sem lhe dispensar maiores cuidados de preservação, que lhe conferissem capacidade de legar seu usufruto, sustentável, às futuras gerações.

Esse fato tão bem confirmado pela história, e deturpado pelo discurso lacunar do progresso como “o novo que inevitavelmente vem” em nome da coletividade, tem conseguido produzir de sensibilizante sabedoria dita nativa (ver a famosa Carta do Cacique Seattle), a lógica acumuladora do grande capital que não se sensibiliza com nada e nem ninguém. Afinal, o que se deve à “meia dúzia” de nativos que vão ser desalojados de suas casas, terras, história de vida e cultura? Se dêem por muito felizes, uma vez que foram tirados de sua barbárie e vida tacanha, tendo a chance de conhecer e usufruir da cultura do homem branco. Não é assim que, na melhor das apresentações, esse raciocinar etnocêntrico que já nasceu velho ainda ecoa, mundo afora? A sua urgência continua tão grave que não há tempo para se pensar em minorias que teimam em querer existir. Ainda que, é preciso que se diga, abertamente ninguém em sã consciência, hoje, tenha coragem de pronunciá-lo às claras. Afinal, responsabilidade social está na pauta do dia, propicia credibilidade a quem diz praticar (mesmo que somente no discurso ou com ações ínfimas).

O fato é que dá sim para realizar-se social, cultural e economicamente usufruindo equilibradamente dos recursos naturais e incluindo até os historicamente excluídos, desde  que se repense, racionalmente[2], os costumes de consumo consagrados. E o ter,  o  saber fazer assumam outros significados, reafirmem os válidos e caminhem na direção da responsabilidade de que cada indivíduo  (dentro do grupo do qual faça parte) pode fazer  a diferença em matéria de consumo e preservação do planeta, selando um pacto social para além do “bom” selvagem e aquém do “mal”. Um pacto até simples demais, e possivelmente tachado de utópico por muitos, mas que tem poder de mudança (para melhor), querendo ou não, pois contém a idéia do somente necessário, tão afastada, bruscamente, por aqueles que se valorizam em demasia e se acreditam merecedores dos luxos supérfluos. Esses não cabem mais em um mundo onde a maioria possa viver de modo simples, mas qualitativamente bem; onde não haja lugar às “personalidades” tão ávidas por se destacarem; onde a pessoa comum tenha sua real importância reconhecida, afinal é ela que tem movido com mais labuta as engrenagens sociais e históricas, ao longo do tempo.

Trabalhar nisso, portanto, requer investir-se em conhecimento, e não mais investir-se em tecnologia que não se sustentará mais em médio ou longo prazo. Como os próprios fatos relacionados à preocupação com o meio ambiente têm sugerido, é mais prudente investir na pesquisa e barateamento de energia que seu custo seja o menos impactante, possível, ao mesmo. É mais racional e responsável.  E responsabilidade ética efetiva é o que falta aos “donos do poder”. Não se trata de parecer ético, faz-se necessário ser autenticamente ético. Afinal, destruir o organismo que proporciona o provimento, é de uma irracionalidade comparada com a dos parasitas. E o ser humano se encontra, ou melhor, nos encontramos numa escala de desenvolvimento, superior àqueles. Ou não?

[1] Corte esse tão discutido dentro e fora do meio acadêmico, de forma interdisciplinar, o qual não tenho pretensão e nem espaço para aprofundar aqui.

[2] Não trato aqui da racionalidade fria advinda do Iluminismo ou século das luzes, a qual mesmo não tendo sido colocada satisfatoriamente em prática, como querem alguns teóricos (vide Rouanet, 1987), não é capaz de contemplar o que é ser, autenticamente, racional. Do contrário, como chamar de racional, por exemplo, um indivíduo que para satisfazer sua fome, depreda seu telhado caçando o almoço, sem pensar que à noite pode ocorrer devastador temporal? Sugere ser assim o homem dito “moderno” o qual não passa de um construto.

 

Atma F L

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Ninguém é uma ilha

Ninguém é uma ilha.

Então, quando estamos “ninguém”, passamos à condição de isolados. E isso parece acontecer quando nos acostumamos, demasiadamente, com a inércia de não agir no real. Quando estamos desligados, ou caímos da roda da vida e queremos que ela pare, desacelere ao máximo para regressarmos à ela com nosso marasmo.

Dessa feita, já nos encontramos doentes pela falta de contato com o ente que nos proporciona sentido existencial, à medida que só temos noção de nós mesmos a partir, necessariamente, dele que nos serve de reflexo, como bem pensa Martin Buber.

Todavia, como se vive hoje no auge do adoecimento de contato (Adorno e Horkheimer), o outro tem nos paralisado, pois reage à coisificação que pretendamos lhe submeter. Assim, o medo do outro se torna uma constante.

Como ver em nós a presença (também) da união, intrincada com a totalidade, das partes que constituem o que está no universal? Como usufruir da saúde como bem estar físico, mental e social que como pessoas em constante construção e reconstrução, nos é conveniente? Afinal, como disse o poeta é melhor ser alegre que ser triste. Pelo menos, para a maioria dos viventes “sãos” que acreditam que, ainda, vale à pena viver.

E os depressivos e suicidas que já desistiram da aventura da vida? Bem, eles parecem ser exceção que, todavia, não pode ser desprezada, uma vez que como quer Camus se há alguma coisa realmente séria no domínio da filosofia, esta é sem dúvida a decisão de permanecer existindo, ou não. (Será?).

Há tantos tipos de desistentes, descontentes que me pergunto se eles são realmente exceção. Outro dia li no salmo 26/27 o salmista pedindo à divindade poder habitar em sua morada e saborear o seu encanto (tradução dos capuchinhos.org). Concordo com ele, precisamos cultivar o encanto que tem o transcendente, precisamos reencantar  a existência, não com misticismos estéreis, ou pelo medo de um deus irado, mas pela simples razão (esta devidamente coerente, não aquela fria da técnica instrumental) de que somos indivíduos, necessariamente, formadores de uma coletividade que depende de cada um, em particular, para ser, existir qualitativamente.

É desconcertante ouvir em certos “diálogos”, a discussão gerada por aqueles que acabam por dispensar maior importância ao indivíduo em detrimento da coletividade e vice-versa. (Não é de espantar, assim, que se esteja rastejante no quesito, básico, das relações).

É bem verdade que o outro será sempre subjetividade pura, entretanto, isto não nos impede de entender que ele é um ser social em essência, e daí advir seu bem mais precioso: ser livre porque é dependente, uma vez que só pode realizar-se em comum unidade. Esse aparente e “complexus” paradoxo põem o ser diante da decisão, permanente, de querer aventurar-se, como pessoa, num todo que é refeito a cada segundo “mortal”, ou sofrer de inanição, negando-se a amadurecer por medo do diferente. Não há uma terceira via. Essa aventura é trágica, exatamente, porque ou a assumimos ou sumimos.

Então, o que lubrificaria as engrenagens dessas mesmas relações, senão respeitar o outro no que ele tem de mais sagrado: sua humanidade. É essa dialogia buberiana que nos permite amar, contudo, se não formos capazes de fazê-l o sempre (e não o somos), devemos ter acordado que para se vivenciar uma relação saudável, equitativa, necessitamos manter um mínimo de respeito pelo ente que nos é sempre diferente na “persona”, caráter, mas nos é semelhante na essência.

Daí, não será mais necessário “justificar” os ruídos das relações, as guerras principalmente. Ah! Então, viveremos o alvorecer de uma nova e promissora humanidade e nisto todos estarão mais ou menos de acordo, mas ainda assim de acordo. O problema é como colocar em ação essa política humanitária, como tornar os ruídos música? É exatamente aí que reside nosso “eterno” fracasso e nossa “eterna” força; nossa capacidade constante de recomeçar acertando e errando dialeticamente (não necessariamente nesta ordem, afinal a realidade só parece linear), usufruindo o mais sabiamente possível do livre arbítrio e aceitando, ultrapassando o que a vida, por vezes, “irrevogavelmente”, sugere nos impor.

Bom, é nisso que, creio, devemos tentar nos aventurar, aperfeiçoar. Por vezes, consiguimos. Outras não. Mas, o importante é que estejamos a construir nosso caminho já que não existe um prontinho, acabado. Oxalá o Divino nos empreste um pouquinho da sabedoria dele.

Atma F L

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